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O que faz o designer em um mundo de IA?

(e o que isso tem a ver com um jogo de tabuleiro chinês?)

Qual o papel do Designer em um mundo em que a tecnologia de Inteligência Artificial Evolui tão rápido?

Em 2016, o mundo parou para assistir a uma partida de Go…
Não que o Go seja um jogo muito popular. Mas o que estava em jogo naquela sala em Seul era um pouco mais interessante do que uma partida qualquer. A equipe do Google DeepMind havia criado uma inteligência artificial chamada AlphaGo e desafiou Lee Sedol — o maior jogador de Go do mundo na época — para uma série de cinco partidas.

Pra quem não conhece, Go (围棋) é um jogo de tabuleiro chinês extremamente tradicional, que foi criado há mais de 2500 anos e que faz o xadrez parecer damas. Para ter uma ideia, existem mais possibilidades de jogadas em uma partida de Go, do que átomos no universo observável. Por décadas, especialistas acreditaram que criar uma IA capaz de vencer um jogador humano profissional no Go levaria pelo menos mais uma geração de pesquisa. (Saiba mais sobre Go)

Lee Sedol durante uma partida contra AlphaGo - Documentário AlphaGo

Então, os jogos começaram. Lee perdeu as duas primeiras partidas, o que já impressionou bastante. Mas na terceira, quando o nível já estava subindo muito, no movimento 37, a IA fez algo que nenhum humano faria. Um movimento totalmente fora do esperado. Uma jogada elegante, quase ilógica, que contrariava séculos de teoria acumulada sobre o jogo. Os comentaristas ficaram em silêncio. Um dos mestres mais experientes do mundo levou quinze minutos para entender o que tinha acabado de acontecer.

O movimento 37, a primeira vez que uma máquina tomou, de forma inegável, uma decisão que só pode ser chamada de criativa. Não foi uma recombinação previsível, mas uma ruptura. A IA havia feito algo inesperado. 

Lee Sedol perdeu a terceira partida também.

E foi então que o jogo ficou interessante de verdade.

O Toque de Deus

Na quarta partida, no movimento 78, Lee fez uma jogada que entrou para a história. Uma jogada tão improvável, tão fora de qualquer padrão conhecido, que mudou completamente a rota da partida e, posteriormente, ganhou um nome próprio: o Toque de Deus. Lee venceu aquela partida. Ele mesmo admitiu: aquela jogada só foi possível porque a IA havia elevado o jogo a um nível que nunca havia sido exigido dele antes. A máquina estava levando o jogo ao seu limite, e Lee precisou se adaptar. No final, AlphaGo ganhou a série por 4 a 1. A IA venceu.

Essa história foi documentada e está disponível no YouTube
AlphaGo – The Movie | Full award-winning documentary

Mas o que todo mundo esqueceu de notar foi o seguinte: aquilo não foi uma guerra entre homem e a IA. Foi, de certa forma, uma grande expressão de cocriação intelectual em que ambos os jogadores foram levados ao seu máximo. Cada lado forçou o outro a se superar. O resultado foi algo que nenhum dos dois teria produzido sozinho.

A pergunta errada

Quando a notícia se espalhou, o mundo fez a pergunta óbvia: a máquina vai substituir os humanos?

Essa é a pergunta de quem está assistindo de fora. Quem está jogando deveria fazer outra pergunta: e se a gente fizer de novo? 

O movimento 78 não existiria sem o movimento 37. Lee Sedol não teria chegado àquela jogada num jogo qualquer, contra um oponente comum, numa tarde tranquila. Foi a IA que o obrigou a chegar ali. A pressão foi o catalisador para que ambos pudessem desenvolver algo novo e melhor.

E agora eu te pergunto: e você, designer? O que a pressão da IA está fazendo em você?

Antes de mais nada, existe uma confusão que precisa ser desfeita antes de continuarmos. A IA é extraordinariamente generativa. Ela produz — imagens, textos, layouts, logotipos, músicas — em volume e velocidade que nenhum humano consegue acompanhar. Ela é uma máquina especializada em recombinação: absorve tudo que já foi feito e devolve variações estatisticamente plausíveis disso.

Mas generativo não é criativo.

Criatividade não é velocidade de produção e nem a simples capacidade de juntar duas referências para criar uma coisa “nova”. Criatividade é (entre muitas outras coisas) ruptura. É fazer o que não estava no manual porque nenhum manual daria conta do momento. 

A IA não faz isso.  Ela faz o oposto: ela busca o padrão, o mais provável, o mais aceito, quase como a média ponderada de tudo que já existiu.

E aqui está o paradoxo que vai definir o próximo capítulo do design: quando todo mundo está usando a mesma ferramenta gerativa, tudo começa a parecer igual. O diferente vai, aos poucos, sumindo. E a diferenciação é inovação. Sem diferenciação, não existe marca. Sem marca, não existe valor. Sem valor, não existe negócio.

A IA, usada sem critério, não é uma ameaça ao designer. É uma ameaça ao cliente que acha que não precisa mais do designer.

O design vem antes da ferramenta

Existe outra confusão que também precisa ser desfeita. 

Em suas respectivas épocas, o Autocad, Photoshop, CorelDraw e Illustrator foram ferramentas que mudaram o paradigma do design. Acelerando processos, democratizando a execução, criando possibilidades que não existiam antes. A IA também não deixa de ser uma ferramenta. Uma ferramenta extraordinária, com um alcance que as outras antes dela jamais tiveram.

Mas design não é ferramenta.

Design é a sequência de ideias e decisões que vem antes da ferramenta. Para quem estamos criando? Por quê? Com que intenção? Gerando que experiência? Dentro de que contexto cultural, social, histórico? Que camadas essa imagem pode provocar no emocional de quem a vê?

Essas perguntas não têm resposta no prompt. Elas têm resposta no designer.

Pense no papel do diretor de cinema. Ele não opera a câmera, não compõe a trilha, não costura a edição. Mas ele orienta todas essas expressões da sua linguagem. Ele é o fio que guia o sentido e atravessa cada decisão. É isso que o designer é — ou precisa se tornar — num mundo onde a execução pode ser (ou já foi) delegada.

Não é “o cara que faz”. 

Mas o cara que decide o que vale a pena fazer, por que, e para quem. Quem dá direção, critério, julgamento. Quem faz curadoria. E a curadoria, por definição, remove o protagonismo da ferramenta.

Preste atenção no que está acontecendo no design agora.

O retorno dos gradientes. A volta dos mascotes. A escuta maior ao público. A adição de imperfeições visuais propositadas — texturas, granulados, traços à mão, inconsistências que antes seriam corrigidas, hoje são exaltadas. Uma tendência crescente da manualidade, do reconhecível, do humano.

Isso não é nostalgia. Isso é resposta.

Rebranding Firefox – por JKR

O mercado (e mais importante, o olho e o coração humano)  estão pedindo o que a IA não consegue fingir: autenticidade. Não a estética da autenticidade. A coisa em si.

Aqui vale uma distinção importante: a geração de sentido e emoção não acontece na marca. Ela acontece na mente de quem observa a marca. Não é algo que se programa em briefing (ou num prompt), não é algo que se garante num manual de identidade. É algo que emerge (ou não) da autenticidade do que está sendo comunicado. E a autenticidade não se imita. Pode-se tentar. A IA tenta o tempo todo. Mas o olho humano percebe a diferença, mesmo que não saiba nomear o que está vendo.

Estamos numa era em que a busca pela perfeição técnica levou a um beco sem saída. A IA busca pela perfeição, a imitação que ninguém saberá se é real ou artificial. E exatamente por isso, o imperfeito passou a ser o mais valioso. O humano passou a ser o mais desejado. Em busca da perfeição, você nunca chega a lugar nenhum — você chega a uma média muito bem executada.

O movimento 78 já está sendo feito

Aqui está o que eu acredito: o designer já está respondendo à pressão.

Não de forma declarada. Não em manifestos e conferências. Está acontecendo nas camadas “mais altas” do design nos estúdios que ditam tendência, nos projetos que ganham os prêmios, nas marcas que viram referência. O movimento 78 está sendo feito. Talvez você já esteja fazendo sem perceber a cada vez que você  se recusa à entrega genérica, cada vez que você insiste num detalhe que a IA não conseguiu alcançar, cada vez que você faz a pergunta que o cliente não sabia que precisava responder.

O mundo está se desiludindo com a onipotência da IA. A promessa de que tudo seria resolvido com um prompt está encontrando seus limites.

Qual é a sua jogada?

Lee Sedol não teria feito o movimento 78 sem a pressão do movimento 37.

A IA está fazendo o movimento 37 agora. Para todos nós. Todo dia.

A questão não é se ela vai mudar o design porque já mudou. A questão não é se você vai sobreviver — você vai, se quiser. A questão é: você vai sentar enquanto a IA domina o seu trabalho e torna suas tão preciosas ferramentas obsoletas? Ou vai tirar o protagonismo da máquina e usá-la para o seu próprio crescimento?

O designer que vai importar nos próximos anos não é o que sabe usar todas as IAs. É o que sabe o porquê das coisas. É o que mantém a pergunta viva: que experiência estou produzindo a partir do meu design, das minhas ideias e da minha curadoria? Para quem? Com que intenção? E o que isso tem a ver com quem eu sou?

Isso a IA não responde.

Isso só você responde.

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Daniel Rodrigues

Apenas mais um designer que pensa demais. Gosto de todo tipo de design e acredito que todo criador tem algo que vale a pena ser dito. Design Gráfico, Branding e um pouco de tudo.

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