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Design aplicado à ergonomia de gênero

Pode ser que alguma vez você, ao buscar comprar alguma peça de roupa, procurou o tamanho e lá estava escrito “tamanho único”. Acredito que a maioria que já passou por essa experiência se perguntou como isso é possível ou chegou à conclusão de que aquela peça “não é para mim”, já que claramente “não me cabe”. Esse é o mito do tamanho único. Mas, além dessa, outra prática também permeia a indústria de roupas e calçados, que é a ideia do shrink it and pink it, que, por definição, significa “reduzir e deixar rosa”. Esse outro mito é recorrente na indústria de produtos femininos. Para rapazes, algo maior e com cores como azul, verde, vermelho; e para mulheres, exatamente a mesma coisa, só que menor e cor-de-rosa. Estamos falando do famigerado modelo unissex.

Para casos como calças, camisetas e dispositivos eletrônicos, isso não é um problema. Mas, quando produtos precisam se adequar à anatomia e à biomecânica do corpo feminino, isso, além de não funcionar, pode trazer sérios problemas de saúde; esse é o caso de alguns artigos esportivos como a chuteira de futebol. Nesse contexto, a medicina esportiva constatou que, entre os atletas de futebol, as mulheres possuem de 2 a 8 vezes mais chances de romper o ligamento cruzado anterior (LCA), e estudos indicam que tudo tem a ver com a anatomia e a biomecânica do corpo feminino, bem como com questões hormonais. Sabendo disso e a partir de diversos estudos, a Adidas desenvolveu uma chuteira voltada exclusivamente para mulheres, apresentando-se como um caso prático de como o design aplicado à ergonomia de gênero pode auxiliar na performance e na segurança de atletas de futebol.

Figura 1: Chuteira Adidas F50 Sparkfusion desenvolvida para mulheres. (Fonte: Adidas)

Por que o corpo feminino requer outro design?

Em se tratando de anatomia, as mulheres possuem o quadril mais largo. Isso faz com que o ângulo Q seja mais acentuado, gerando uma tendência natural para o joelho valgo, ou seja, que ele fique mais voltado para dentro em relação ao dos homens. Além disso, a fossa intercondilar, local onde fica o ligamento cruzado anterior, é mais estreita nas mulheres, o que permite que o ligamento e os ossos se encontrem com mais facilidade em caso de torção, facilitando a lesão. Em relação à biomecânica, o ângulo Q e essa propensão ao joelho valgo influenciam diretamente o movimento de mudança de direção ou de amortecimento de um salto, pois essa angulação atua direcionando os joelhos para dentro. Em poucas palavras, isso significa que há maior possibilidade de torção de joelhos de forma perigosa. Como isso ocorre quando os pés estão no chão, basta combinar os pés travados com uma torção para dentro para ter o cenário certo de uma possível lesão ligamentar. Além disso, as mulheres tendem a aterrissar de saltos com os joelhos mais estendidos, e assim o impacto é mais direcionado para os joelhos do que para os músculos das coxas. Ao tratar da questão hormonal, o estrogênio é excelente para músculos e ossos, mas afeta diretamente os tendões e ligamentos, deixando-os mais elásticos e influenciando o surgimento de lesões.  

Figura 2: Comparativo anatômico do ângulo Q entre os corpos feminino e masculino. (Fonte: Reprodução/Internet)
Figura 3: Vista anatômica do fêmur destacando a fossa intercondilar, canal que abriga o ligamento cruzado anterior (LCA). (Fonte: Buffl)

Adidas F50 Sparkfusion

Após aproximadamente 10 anos de pesquisa, a Adidas lançou em junho de 2025 a F50 Sparkfusion, uma chuteira voltada exclusivamente para mulheres que jogam futebol. Nesse lançamento, pode-se destacar a forma-molde desenvolvida para a anatomia feminina. A chuteira apresenta diferenças cruciais na maneira como se molda aos pés, levando em consideração que eles são mais estreitos e possuem o arco plantar mais alto. Sob esse aspecto, vale pontuar a relevância do estudo da antropometria (que mede e analisa as relações entre dimensão, peso, formatos e comprimento dos ossos) e da aplicação do dimensionamento humano (que consiste em aplicar o que foi constatado nos estudos antropométricos). Afinal, para compreender que o design esportivo vai muito além do “diminuir e deixar rosa”, é indispensável uma análise ergonômica aprofundada.

Figura 4: Adidas F50 Sparkfusion exibida em três diferentes ângulos. (Fonte: Adidas)

Inovações baseadas no estudo de biomecânica e análises antropométricas

Com base em estudos do corpo feminino a Adidas aplicou de forma prática as mudanças que julgou necessárias para melhorar o desempenho das atletas e proporcionar mais segurança. Assim, a parte inferior da chuteira possui uma diferença importante que busca ajudar no balanceamento do ângulo Q, o qual potencializa o valgo. A F50 Sparkfusion apresenta uma trava a mais no conjunto de travas da parte da frente do calçado; enquanto a parte interna possui três cravos, a parte externa apresenta quatro. Essa quarta trava distribui a carga de pressão uniformemente na lateral do pé, reduzindo o risco de uma torção perigosa da articulação. 

Outra inovação foram as travas semicônicas e o pivô central. A inserção desse formato de travas é interessante pois, ao mesmo tempo em que a estabilidade e a firmeza são essenciais, o pé não pode travar no gramado; caso isso acontecesse, todo o projeto seria equivocado. Então, o uso de travas semicônicas somado à trava extra, além de proporcionar estabilidade, permite que as mudanças de direção sejam feitas de forma segura, evitando que os pés fiquem presos no campo. Ainda pensando na relação entre velocidade e estabilidade, o solado da chuteira possui um pivô central que se assemelha a um redemoinho. Essa tecnologia reduz o atrito e permite mudanças de direção mais seguras e rápidas. 

Além disso, ao considerar que a região do calcanhar é mais estreita e o arco do pé é mais sinuoso, a Adidas criou uma palmilha que proporciona mais suporte e apoio para que possa haver mais estabilidade e conforto para acomodar pés mais estreitos com segurança.

Figura 5: Elementos estruturais da chuteira F50 Sparkfusion, incluindo configuração específica de travas, pivô central e palmilha. (Fonte: adidas.)

O Impacto no mercado e o futuro do design de gênero

O desenvolvimento desse projeto representa uma confirmação da importância do estudo da ergonomia aplicada ao gênero, levando em conta análises antropométricas, o dimensionamento humano e a biomecânica. Mas, para além dos merecidos parabéns, podemos questionar o porquê de apenas em 2025 surgir um produto como esse; mesmo com os 10 anos de estudo, é tudo muito recente. Pode-se considerar duas hipóteses: a falta de profissionais qualificados para desenvolver o produto ou a falta de interesse no mercado feminino voltado para o futebol. Em ambos os casos, é desconcertante pensar em qualquer uma dessas situações. Que daqui em diante possa haver maior interesse e cuidado com as mulheres nos esportes, e que outras grandes marcas possam seguir esse mesmo caminho. Antes tarde do que nunca.