O Vilão que rompe com os conceitos lógicos do Design de personagens
Alameda Slim é um dos muitos vilões da Disney. Ele é o ladrão de gado do filme animado “Nem que a Vaca Tussa” (2004), sendo capaz de roubar aproximadamente cinco mil cabeças de gado em uma única noite. Ele não é um criminoso comum, daqueles que agem com armas, violência e outras crueldades. Slim é espalhafatoso e seus atos de furto se transformam em um verdadeiro espetáculo musical embalado pelo estilo yodel, o tradicional tiroleio. É um show psicodélico, repleto de cores e de uma coreografia coordenada capaz de deixar o telespectador empolgado a cada novo roubo. Essas características já são suficientemente disruptivas em relação ao senso comum do design de personagens.

É recorrente que vilões e antagonistas se apresentem de forma sombria e contida, tentando ser o mais assustadores e cruéis possível. Isso funciona quase como um “ABC” de como construir um antagonista, sendo o padrão mais ensinado, o que não está incorreto. Se você não quer errar, basta seguir essas regras claras e óbvias dentro do design de personagens, pois elas trazem a segurança de que a mensagem será transmitida de forma direta e de que não haverá dúvidas de que aquele indivíduo é o vilão da narrativa. Dessa forma, como o design fora do senso comum atuou de modo a criar uma conformação visual capaz de expressar a instabilidade emocional de Alameda Slim?
O Narcisismo como motivo da Instabilidade emocional
Slim é o típico narcisista, pois quer ser reconhecido como o maior ladrão de gado da região e deseja aplausos e louvores. Ele se superestima e por isso acredita ser superior aos outros. Como precisa ser admirado e elogiado constantemente, quando um de seus sobrinhos gêmeos e capangas chamam sua refinada técnica vocal de apenas uma “cantoria”, Slim sofre um ataque histérico. A partir disso, ele começa a se engrandecer furiosamente, deixando bem claro que sua música é uma refinada forma de arte. O vilão é emocionalmente instável e desequilibrado, estando sempre a oscilar entre a calmaria do egocentrismo e a histeria da revolta quando algo sai errado ou quando é contrariado.
A “instabilidade” do yodel como Técnica e Identidade
O iodel é uma técnica vocal baseada no contraste abrupto de registro. O cantor alterna de forma rápida e intencional entre o som de peito, que é grave e encorpado, e o som de falsete, que é agudo. Essa técnica complexa soa como se a voz estivesse em uma gangorra alternando entre o alto e o baixo, e por essa razão ela transmite uma sensação de instabilidade ou de voz quebrada.
Instabilidade: Técnica visual inquietante
Dondis define a instabilidade como “[…] a ausência de equilíbrio e uma formulação visual extremamente inquietante e provocadora.” Para a autora, as técnicas visuais são estratégias de comunicação que o designer utiliza para controlar o significado de uma imagem e a resposta do espectador. No entanto, resta a questão sobre o motivo pelo qual essa técnica traz tanta inquietação ao observador. O cérebro humano busca constantemente a estabilidade, sendo esta uma característica fisiológica, social e emocional bastante marcante. Nós andamos com duas pernas e pés, além de fugirmos, sempre que possível, de situações que nos tiram do equilíbrio de forma geral. Na linguagem visual ocorre um processo semelhante, pois quando olhamos para algo, traçamos inconscientemente uma linha vertical e uma horizontal que tomamos como referência, o chamado “felt axis”. A partir desses eixos imaginários, fazemos comparações rápidas, de modo que se algo está em conformidade com as linhas, é considerado visualmente estável, mas se está fora delas, torna-se instável. Por mais que a instabilidade geralmente não pareça algo interessante à primeira vista, na comunicação visual ela é muito útil para quebrar a monotonia, além de trazer uma forte ideia de movimento, dinamismo e energia.

Contraste: Técnica do contrário
O contraste é uma técnica visual que se apresenta como uma dessemelhança intencional. Para que ele exista, é necessário que ocorra uma comparação, pois não podemos simplesmente dizer que algo é grande ou pequeno, alto ou baixo, ou escuro ou claro ao analisar os elementos de forma individual. O contraste só pode ser identificado quando um referencial é estabelecido. O leão, por exemplo, é um grande felino, mas ele só pode ser considerado assim porque existem felinos menores, como os gatos domésticos e outros felinos selvagens de menor porte. Para Dondis o contraste é “[…] estar contra. Ao compararmos o dessemelhante, aguçamos o significado de ambos os opostos […]”.
O desenvolvimento do design instável e caótico de Alameda Slim
A conformação visual de Slim foi inteiramente pensada para retratar a instabilidade emocional de um narcisista. Sem essa informação, torna-se difícil entender as escolhas visuais feitas para o vilão, fazendo com que o design pareça uma construção inconsistente e dando a impressão de que tudo o que você aprendeu sobre a teoria das cores, formas e comunicação visual está equivocado. Em uma análise superficial, o observador poderia simplesmente dizer que a equipe da Disney enlouqueceu.
A parte mais simples de identificar é a estrutura corporal do vilão. Ele possui um torso inacreditavelmente grande e pesado, sendo bastante gordo, com uma barriga que ultrapassa muito o limite dos membros inferiores. E falando neles, as pernas e os pés são minúsculos, sendo fisicamente impossível que aquele corpo se sustente em pé na realidade. Ou seja, temos de forma clara a imagem de um triângulo invertido. Como um triângulo com a base voltada para cima não consegue se manter equilibrado sozinho, nós temos ali uma imagem perfeitamente identificável e legível da instabilidade.

No entanto, isso ainda não explica as cores. Resta entender por que um vilão, um homem cruel, usa uma camisa laranja com glitter se aprendemos que o laranja é uma cor associada ao que é amigável, enérgico, alegre e sociável. Primeiramente, por ser narcisista ele precisa ser visto e deve brilhar como um carro alegórico para chamar a atenção. Mas o ponto-chave para entender as demais escolhas é a compreensão da função do contraste utilizado na construção de Slim justamente para realçar a instabilidade. Para isso, vale retomar brevemente algumas características contrastantes mencionadas anteriormente.
No narcisismo, há a oscilação entre a calmaria e a histeria; na música yodel, o choque entre o grave e o agudo; no visual, a oposição entre o grande torso e as pequenas pernas e pés.
Além dessas características, seu próprio nome, Alameda Slim, é uma ironia, pois o termo significa magro, fino ou esbelto em inglês. Ele é um verdadeiro poço de contrastes. O vilão também se disfarça como um cavalheiro chamado Yancy O’Del para comparecer a leilões e comprar as terras de que os fazendeiros precisam se desfazer devido à perda do gado roubado. Seu disfarce inclui, além da postura polida, um belo e elegante terno azul-escuro, uma cor que é frequentemente associada à segurança e à estabilidade. Ainda, o conjunto cromático no qual está localizada a cor laranja é oposto ao do azul, ou seja, possui uma relação direta de contraste


Assim, para o grande ladrão do Oeste, o contraste se apresenta como um intensificador da instabilidade, gerando uma coesão caótica, o que representa mais um contraste em sua composição. Se você pensou que a técnica visual da instabilidade se resumia apenas a inclinações e desalinhamentos de elementos, o personagem demonstra que essa visão é parcialmente equivocada. A comunicação visual obtém grandes benefícios ao combinar diferentes técnicas e ao adotar um olhar mais amplo sobre as possibilidades de uso dessas ferramentas.